sábado, maio 17, 2008

A FORMATURA DA MINHA FILHA.


Antes de mais nada, desculpem-me pelo tamanho do texto, mas é proporcional à emoção.
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Tudo começou em 2004, ou melhor, na década de 80, no “Marinheiro Trapalhão”, prosseguiu na década de 90, no “Chapeuzinho Vermelho”, e assim foi. Transposta a etapa de colégios, cursinho, vestibular e UFRN, vamos para 2004, recém-chegados à cidade maravilhosa. Transferência para a UERJ, trabalhosa, mas obtida. Já lá se vão 4 anos, de estudos, de greves, de badalações, de vida universitária.

Mais uma formatura para nós, pais com idade centenária, obviamente se somadas. O convite da “Stylus” (organizadora do evento) é muito bonito. A formanda, após entregá-lo e observar as reações dos pais, parece-me que ficou triste por eu não ter chorado ou demonstrado emoção. O choro é uma reação espontânea e não aconteceu. Por quê? Porque homem que é homem não chora!!!

Treze de maio de dois mil e oito, dezoito horas e quarenta e cinco minutos, adentramos, pai e mãe da formanda, o auditório de um teatro da UERJ. Começava ali o ato solene, ou melhor, quase solene, de colação de grau.
Levei minha câmera digital, que comporta 2 pilhas, e mais 4 pilhas de reserva. Eram ao todo 7 pilhas. É possível que a maioria dos Cientistas Sociais não goste de matemática, mas não de forma tão explícita: 2+4=7 (?). Explico: 2 pilhas na câmera, aquelas recarregáveis; mais 4 pilhas alcalinas; e eu, uma pilha. Não contei a mãe, que parecia estar calma.

Filha, do recebimento do convite até a data de sua formatura, acumulei, sem saber, muita carga. Mas não chorei!!! Como vocês sabem, macho que é macho não chora, “sua” pelos olhos. E eu suei, suei por toda a formatura. E que formatura!!! Revestida de informalidade, conduzida por um casal de formandos muito bem humorados, ao som de belas e agradáveis músicas, ficará marcada positivamente para todos que lá estavam.

Estava “invisivelmente emocionado”, pois macho que é macho (repito) não se emociona, muito menos “visivelmente”. A cada minuto me perguntava se minha mulher percebia que eu secava o “suor ocular”. Fiz movimentos muito sutis, buscando disfarçar meu “calor”. Fiquei até resfriado por alguns instantes, tendo que fazer aquela inspiração “úmida”, não sei por quê.

Para aqueles que não puderam comparecer, farei uma descrição do evento, com toda a discrição possível, uma vez que essa, a discrição, não foi a tônica da cerimônia. Cerimônia sem cerimônia, que a fez singular. A entrada dos formandos deu-se pelo mesmo local de acesso dos convidados, o hall de entrada do teatro, um a um, ou um a uma, ou uma a um, se dirigiam para ocupar seu assento no palco, numa pequena arquibancada. Pronto! Formandos em posição, todos sentados à procura de seus familiares e amigos na platéia. “Robeeeeeerrrrrrrrrtaaa”, “Beta”, eram as palavras mais ouvidas vindas da platéia. Torcida organizada, muito bem organizada, com faixa e tudo mais. Felicidade é a tradução que tenho para essa torcida. Em seguida, foram convocados os componentes da mesa, professores e funcionários. O locutor profissional dá a vez ao casal de formandos que passam a conduzir a “festa”, isto é, a formatura.
O bom humor se fazia presente também entre os formandos, quando, de vez em quando, erguiam um cartaz com mensagens especiais: “PROCURO EMPREGO: LAVO, PASSO E COZINHO”, e outras mais, bem criativas.
Confesso que, quando comecei a ler o convite, aquele que eu falei lá em cima, fiquei um pouco preocupado com o conteúdo, e não li mais. O começo era um diálogo entre os apresentadores que confundiam “Ciências Sociais” com “Serviço Social”. Falavam em ”epistemologia”, “episte...o quê?”.
Traduzo (do Aurélio): “Conjunto de conhecimentos que têm por objeto o conhecimento científico, visando a explicar os seus condicionamentos (sejam eles técnicos, históricos, ou sociais, sejam lógicos, matemáticos, ou lingüísticos), sistematizar as suas relações, esclarecer os seus vínculos, e avaliar os seus resultados e aplicações”. Parecia meio sem graça, cansativo, à noite, depois de um dia de trabalho. Então resolvi e deixei que a surpresa se fizesse no dia D, e fui muito feliz na minha decisão.

Começaram as homenagens, muito bem justificadas, emocionadas e espontâneas (minha impressão), algumas revestidas de humor agradável e com uma música da melhor qualidade. Vários foram os formandos chamados para narrar as qualidades e feitos dos homenageados. E vez por outra, uma placa era erguida por uma formanda, dando o seu recado bem humorado.

Dois discursos de dois paraninfos de duas turmas, uma da manhã e outra da noite. O primeiro, creio que professor de Sociologia do Futebol, fez um discurso de pai pra filhos, de um pai que quer muito bem a seus filhos. O segundo, de improviso, feito por um professor mais jovem, primeira vez como paraninfo, foi bem interessante, apesar de vários momentos de divagação, na lembrança de seu tempo de universitário.

Ah, eu havia me esquecido. A cerimônia teve início com todos de pé, a cantar o Hino Nacional. Momento cívico muito bonito e respeitado por todos. BRASIIIIILLLL!!!

Retomando, não no sentido de “tomar de novo”, mas sim de continuar a narrativa, chegara a hora da colação de grau. Chamada por ordem alfabética.
Para cada formando, no telão (tinha um telão que eu não falei) apareciam fotos suas desde a infância até os dias de hoje.
Para cada formando um texto com suas particularidades, aos olhos de seus amigos.
Cada formando recebia o seu “canudo”, cumprimentava os componentes da mesa, e voltava para o seu lugar. Mais placas, aquelas placas, apareciam. Gostaria muito de registrá-las nesse texto, quem sabe a autora me envia e autoriza.

Permita-me Roberto Carlos, eram tantas emoções... Eu estava com o ritmo cardíaco um pouco alterado, talvez por umas gotas de adrenalina, que teimavam em aumentar seu volume. Minha emoção e felicidade em compartilhar aquele momento com dezenas de pessoas que presenciavam um sonho se tornar realidade, aumentava o meu suor, lembram, aquele suor. Foi então que tomei uma outra decisão, vou fotografar ou filmar minha filha recebendo o diploma? Perguntei a opinião da minha esposa e ela foi categórica: não sei, você é quem sabe! Decidi fotografar. Seria melhor mandar as fotos para os parentes e amigos. Que nada, errei !!! A foto saiu tremida, creio que foi devido a algum terremoto na área do teatro, provavelmente com o epicentro na minha poltrona. Ainda bem que a “Stylus” fotografou e filmou tudo, vou pagar pra ver, literalmente.

Juramento, o juramento, que juramento. Foram três, tipo cobrança de pênalti, mas só valeu o último, que era pra valer. O formando fez o primeiro, cujo texto não tinha nada a ver com o juramento, e no meio do mesmo, do juramento, ele disse que era brincadeira, que não tinha nada a ver. Risos, gritos, “Beta”, e assim foi. Veio a segunda tentativa, o mesmo formando, bola na marca, todos os formandos com o braço direito erguido, naquela posição de juramento, menos ele. Mesmo assim começou: “Prometo...”, quando foi interrompido por todos para que erguesse o braço direito direito e fizesse direito, apesar de cientista social. Terceira e última cobrança, ou melhor, juramento. Perfeito!!! Parabéns jovens bacharéis, continuem com seus estudos e façam o melhor para vocês, para todos os seus, e para o nosso país, não necessariamente nessa ordem.

Encerrada a cerimônia, chapéus ao alto, beijos, abraços e lágrimas (menos eu), e boa sorte a todos, sejam felizes!!!

Na saída, uma multidão no hall de entrada ou de saída, aguardava os mais novos cientistas sociais do país, já despidos das becas. Eu, tranqüilo, próximo à porta por onde eles saíam, aguardava minha filha para poder cumprimentá-la e fotografá-la, sem o mínimo de ansiedade. De repente, não mais que de repente, surgiu a Roberta, sua amiga. Não sei o que aconteceu, provavelmente pelo fato de ter ouvido e torcido por ela durante a cerimônia, não me contive e bradei: “Robeeeeeerrrrrrrrrtaaa”. Depois a cumprimentei, ela foi embora, e então, após alguns instantes, dei conta do susto que ela deve ter levado. Desculpe-me, foi sem querer, foi instintivo.
Pouco tempo depois, chegou a minha filha, beijos e abraços, fotos, e caminho de casa. A jornada continua.

Minha filha, que a placa em sua homenagem, se transforme em realidade, não só pela aparência. Beijos e não vou falar que te amo, porque isso é coisa de boiola e seu pai é muito macho.

Rio de Janeiro, em 13 de maio de 2008.
JLevis

4 comentários:

Dario disse...

Caro e Queridos Amigos Levis e Ana,
Biu, seu comentário foi tão emocionante que quase chego ás vias de fato - chorar. Mas como você mesmo disse que macho que é macho não chora, apenas verte águas pelos olhos, assim ocorrreu.
É muito emocionante e gratificante de participado de certo forma desse jornada, tanto de vocês pais como também dos filhos. Se não estava presente fisicamente, certamente em espírito estava lá e torcendo para tudo da certo.
Parabéns pelo desabafo-depoimento e fiquem sabendo que essa alegria também contagia os que não estão tão próximos.
Desejo a Dra. Raquel todas as felicidades e sucessos, e que acima de tudo, segundo as suas próprias palavras - "Parabéns jovens bacharéis, continuem com seus estudos e façam o melhor para vocês, para todos os seus, e para o nosso país, não necessariamente nessa ordem".
Curtam muito, pois essa emoção é pra poucos. E vocês merecem.
Um cheiro no coração de toda a família Levis.
Dario e Fátima

PS - Se houver alguma incorreção do vernáculo, desconsidere, pois não fiz revisão para não estragar a aemoção.

valenia disse...

Queridos Levis, Ana (Peruáááá!!!) e Raquel.

PARABÉNS !!! Pela formatura, pela família e principalmente pela emoção revelada.

A medida que lia o texto, passava pela minha mente um filme, com início em 1988 na BNA. Indiscutivelmente o período que lá vivi foram os melhores que minha memória já afetada pela idade permite.

Uma imagem em especial ficou congelada em minha mente enquanto também "suando" lia seu relato, era a imagem de uma menininha sardentinha, de cachos loirinhos, olhos claros, bochechas (e que bochechas!!) rosadas e lábios? Nariz? Ahhh !!! Esses não se via... Pois estavam totalmente recobertos por uma massa caudalosa, esfiapenta e amarela.
MANGA !!!
Parabéns, menina linda do rosto recoberto de manga, tradução de infância feliz e liberdade.
Bjs
Tia Valênia

rachel disse...

Obrigada papi!!
Sem vcs nada seria possível.
Amo vcs!!
Rachel levis

Vagner disse...

Caro amigo Levis,

Parabéns pela formatura da raquelzinha !!
O texto é simplemente sensacional e emocionante, mas cadê as fotos ?? Tanta pilha para a máquina e não recebi nenhuma foto deste fato memorável !! kkk.
Abraços,
Vagner